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URUAU - HISTRIA
04-01-2006 23:01:46
6. A instalao do municpio

Os filhos e genros do Coronel Gaspar, convidados por ele para um caf, s 14 horas do dia 15 de agosto de 1931 - dia santo de guarda consagrado a Nossa Senhora d?Abadia do Muqum -, se reuniram na casa paterna. A conversa sobre os mais variados assuntos era to animada que, de longe, se percebia haver ali grande quantidade de pessoas.
A certa altura, interrompeu o pai Gaspar:
- Bem, meus filhos, vamos tratar do assunto principal, ou seja, a instalao do municpio e a posse de Chico, na Prefeitura.
Neco (Manuel Fernandes) arrisca um palpite:
- Na minha opinio, devemos promover as solenidades do modo mais simples possvel, para no ficar muito caro. Convidaremos as autoridades de Pilar e da sede da comarca, isto , de Jaragu, especialmente o Dr. Moacyr Ribeiro de Freitas, juiz de direito - que presidir s solenidades e dar posse ao prefeito, inh Chico -, o Sebastio Gonalves, alguns outros amigos, o prefeito e o juiz municipal de Pilar. De Jaragu, alm do juiz e do Sebastio, devemos convidar o Dr. Augusto Rios, o Baltazar de Freitas...
Aristides Ribeiro, antes que o tio Neco completasse a relao dos nomes que pretendia dizer, interrompeu-o:
- De Gois, eu vou convidar meu pai, Benedito Ribeiro, o Jarbas, o Eduardo e mais alguns amigos.
O tio Chico, que fora nomeado prefeito, completou:
- De So Jos, vamos convidar o senhor Bispo, Dom Florentino, o Compadre Zeco, o Antnio Fernandes, o Jos Ribeiro com a famlia, o Olegrio Silva Rocha.
Enias Fernandes, que ouvia atentamente as opinies dos irmos e cunhados, acrescentou:
-No podemos esquecer dos amigos de Amaro Leite e de Descoberto, Benedito Coelho, Aristteles, Pedro Correia, S Delino Amrico, Euzbio Martins...
O Coronel Gaspar interferiu:
- Precisamos mandar um ofcio convidando o Dr. Pedro Ludovico e o Dr. Jos de Carvalho dos Santos Azevedo, pelo menos. Chico preparar um banquete para os convidados. Voc, Neco, se encarregar dos convites.
Ouvindo a recomendao do pai, Francisco Fernandes acrescentou:
- Alm do banquete, eu posso hospedar uma parte dos visitantes, j que aqui ainda no temos hotel.
- A minha gente eu fao questo que fique l em casa, ou seja, meu pai, meus irmos, enfim todos que vierem de Gois, bem como o Dr. Moacyr, que vir de Jaragu - acrescentou Aristides Ribeiro.
Enias se props:
- Os de Descoberto e os de Amaro Leite podero ficar l em casa.
Pondo termo ao assunto da hospedagem, adiantou o Coronel Gaspar:
Quando eles chegarem, faremos a distribuio.
O Professor Domingos Vicente Costa Campos, recm-chegado de Corumb de Gois, onde era alto comerciante e falira, pelo excesso de bondade e altrusmo (dizia-se que ele no respondia no a ningum, ou a quem quer que fosse que o procurasse, ainda que lhe pedissem o impossvel), interfere com entusiasmo, com o seu linguajar caracterstico:
- A msica, n... na... eu... u... u... Roque que a Balbina, nean, vamos cantar na missa, muito bonito, muito bonito, n... na...
O Professor Domingos era exmio maestro. Executava diversos instrumentos, especialmente o clarinete. Todos os presentes aplaudiram, com alegria, a sua promessa.
Tudo combinado. Francisco Fernandes adiantou mais que, alm do banquete, promoveria um animado baile, noite, e para isso, armaria uma barraca em frente porta, para comportar todo o povo.
Ficou marcada a data de 3 de setembro de 1931 para a instalao do municpio e a posse do primeiro prefeito seria exatamente s onze horas.
Tudo correu conforme fora previsto. No dia aprazado - 3 de setembro -, Sant?Ana estava preparada para a grande festa. De vez em quando se ouvia o estampido de um foguete. A orquestra, logo cedinho, comeou a ensaiar, para tocar durante a missa. Os acordes do clarinete e do violino enchiam os cus do povoado de sons anglicos. A emoo tomava conta de todos. As horas corriam!
Onze horas! A residncia do prefeito nomeado, Francisco Fernandes, se encheu de gente. Sala, copa, cozinha, quartos - no havia lugar para mais ningum. As cozinheiras se apressavam. Num banco improvisado na porta do quintal, Secunda, a ?chefa? das empregadas de inh Chico, ralava grande quantidade de apetitosos queijos, para ser servido com doce de leite, j preparado para sobremesa. Nerosa gritava Man e Calu, seus enteados, para trazer paus de lenha e atiar o fogo. Parece que estou ouvindo ela falar, com aquela vozinha suave, cheia de doura, mansa, suplicante.
- Mane, home, traz uns pauzinhos de lenha, seno o almoo atrasa. Vai ajudar ele, Calu! Cad Vils?! Ele podia rachar mais lenha!... (Ervils era um rapaz criado pelo tio Chico).
Enquanto a dignssima esposa do prefeito se preocupava com o almoo, meia dzia de foguetes de rojo subiu aos cus, anunciando a chegada do senhor Bispo Dom Florentino, que j se encontrava na vila desde o dia anterior.
Assim que entrou na sala de recepo, foi logo anunciando o incio da Santa Missa. O vozerio parou de chofre. Silncio absoluto. Todos se postaram em atitudes de respeito e em p.
Dom Florentino Smon Garriga, o sucessor de Dom Francisco Ozamis na Prelazia do Alto Tocantins, antes das primeiras oraes da Santa Missa, disse algumas palavras, congratulando-se com o povo de Sant?Ana por aquele extraordinrio acontecimento, um marco decisivo na arrancada para o progresso daquela nova comunidade, uma obra indiscutvel dos Fernandes.
Sob a batuta do Prof. Domingos Vicente, o Sr. Roque Ponce mandou para o ar um primeiro acorde de seu clarinete, suave e forte, ao mesmo tempo, com o que fez abalar os coraes dos presentes.
A orquestra era composta de duas clarinetas, o encantador violino executado pela jovem e bela Balbina, trs violes sob a maestria do Odilon Ribeiro, Joozinho e Neviton. Aleluia (Diva Ribeiro de Freitas), Sanica, Col e dona Joaninha completavam o coro, com voz s, em duetos, reforados com as vozes masculina de Bigu (Benedito Ribeiro) e do tio Tone (Antnio Fernandes).
O hino inicial de abertura da celebrao da santa missa foi entoado, e a harmonia dos sons era de tal sorte que elevava os assistentes a um nvel superior em sublime enlevo. Dom Florentino entoou o Prefcio e depois o Glria. Trs rojes subiram ao ar deixando o rastro quase invisvel de fumaa, para, alguns instantes depois, abalar os assentos com os estampidos. E a missa cantada prosseguia. Dentro da casa no havia mais lugar. E as portas de entrada e as janelas ficaram apinhadas de curiosos. Algumas matronas idosas receberam, trmulas, a sagrada hstia.
Terminada a santa missa, o Dr. Moacyr Ribeiro de Freitas, na qualidade de juiz de direito de Pirenpolis - respondendo, tambm por Jaragu, por motivo da doena de que fora acometido o Dr. Augusto Ferreira Rios, o titular -, declarou aberta a sesso solene de instalao do municpio e de posse de seu primeiro prefeito, Sr. Francisco Fernandes de Carvalho, dizendo, em voz alta, clara e pausada: (...)
(texto transcrito fielmente do livro A famlia Fernandes e a fundao de Uruau: Reminiscncias, pginas 159 a 161. Cristovam Francisco de vila. Editora Bandeirante Ltda. Goinia. 2005).

Histórico
  » 04-01-2006 23:01:24 - 1. A criao do Municpio de Uruau
  » 04-01-2006 23:01:08 - 2. Fundao de Uruau. Gaspar Fernandes: Uma Vida de Lutas
  » 04-01-2006 23:01:29 - 3. Jos Fernandes de Carvalho e a criao do municpio de Uruau
  » 04-01-2006 23:01:56 - 4. O telegrama
  » 04-01-2006 23:01:56 - 5. A criao do municpio
  » 04-01-2006 23:01:46 - 6. A instalao do municpio
  » 04-01-2006 23:01:12 - 7. O baile
  » 04-01-2006 23:01:22 - 8. Os primeiros servidores do Poder Judicirio
  » 04-01-2006 23:01:15 - 9. Os primeiros atos do prefeito
  » 04-01-2006 22:01:25 - Governantes do Municpio de Uruau
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