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URUAU - HISTRIA
04-01-2006 23:01:56
4. O telegrama

Corria o ano de 1931. Era o ms de julho.
Ns morvamos na Fazenda Conceio, conhecida por Tapera, distante quatro quilmetros ou pouco menos do povoado de Sant?Ana. Para que pudssemos freqentar a nica escola pblica da Vila, meu pai fez um trato com a tia Alice Vieira de Carvalho, viva de Fidlis Martins Pereira, que para c, com seu irmo Calimrio Fernandes de Carvalho e os filhos, veio do antigo So Jos, em companhia do Coronel Gaspar.
Papai combinou com ela para que ficssemos em sua casa, durante a semana, de segunda a sexta-feira. Certo dia do ms de maro, estava toda famlia reunida na porta da casa, que ficava na hoje Avenida Tocantins, esquina com a rua Quintino Bocaiva. Falvamos sobre os planos do professor Leonel Francisco de Brito de, por intermdio dos alunos, construir um campo de futebol. Para isso, todos os alunos, no dia seguinte, deveriam comparecer escola munidos de uma enxada, foice ou machado, quando ele suspenderia a aula uma hora antes do horrio normal. E quem no dispusesse de ferramentas, ajuntaria os ciscos para que o local ficasse bem limpo.
Pois bem, estvamos no calor do debate uns concordando, outros no, quando j escuro, 19 horas mais ou menos, aproximou-se um cavaleiro, montado em um burro, plo de rato, chapu de aba cada (parecido com o de Tiradentes nas notas de quinhentos cruzeiros), com mala e capa atados na garupa, arreio tipo ?socadinho?. Foi chegando e perguntando:
- Cad Salia?
Tia Alice, que se encontrava na sala, assomou porta, e, com aquele seu linguajar um tanto gaguejante, indagou:
- ... Jlio, como vai? Vamos apear? Est chegando de So Jos? Como vai essa gente l? Sr. Zeco, compadre Antnio...?
- Todos bons, mandaram abraos, respondeu. Vim trazer um telegrama para tio Gaspar e uma carta para Sr. Neco, enviados por tio Zeco. Vou entreg-los e depois voltarei. Quero arranchar aqui com a senhora e matar tanta saudade, concluiu.
Era Jlio Antunes da Silva, enviado especial de Jos Fernandes.
Trinta minutos depois, foguetes de cauda comearam a subir, com ribombeante estrondo, iluminando os cus de Sant?Ana! Um, dois, dezenas desses artifcios subiram ao ar, da porta do tio Neco, do tio Adelino, do tio Aristides, da casa do pai Gaspar, com aquele ?chie...... p...?, cinco, seis de uma s vez. Foi meia hora de tiroteio!... Todo mundo se entreolhava perplexo. O que houvera? Que teria acontecido? Por que tanto foguete? Devia ter acontecido alguma coisa de bom.
A casa do tio Neco ficava na mesma avenida, l embaixo. Muita gente para l se dirigia. Afonso Vila e eu samos em desabalada carreira para l. Algum, ento me explicou:
- Veio um telegrama de So Jos, avisando que foi criado o municpio de Sant?Ana. Foi o Jlio que o trouxe, a mandado de Z Fernandes. A instalao vai ser logo.
Na verdade, pouco entendemos o que se dizia. Nunca tnhamos ouvido falar nesse nome - municpio! Contvamos, ?aquela poca, com 10 anos de idade e criados na roa, conhecamos o cabo da enxada, da foice e do machado. Sabamos ordenhar vaca e correr a cavalo. O mais era ouvir o canto alegre da saracura, do coriango, noite toda na promessa: ?...manh eu vou...?; o roncar grosso e rouquenho do guariba, lembrando um engenho de cana-de-acar, quando forado por grosso feixe de cana em suas moendas; as manadas de capivara, os redemoinhos do porco-queixada (javalis), o assobio longo das antas. Todavia, poltica administrativa e instalao de municpio eram coisas muito estranhas!
Lembramos-nos do cavaleiro que, pouco antes, passara pela casa da tia Alice, o Jlio, e exclamamos:
- Ah! isso que o Jlio veio trazer...
Ouvimos tio Neco dizer, em voz alta, ao grupo de pessoas que ali se encontrava, vidos de melhores informaes:
- , felizmente o Dr. Pedro Ludovico atendeu ao apelo de meu pai. Baixou decreto elevando o nosso distrito a municpio. Agora no ficaremos mais subordinados a Pilar. O Sr. Zeco escreveu-me informando que, dentro em breve chegaro aqui autoridades para instalar o municpio de Sant?Ana. O Sr. Chico foi nomeado o primeiro prefeito.
Chico era o seu irmo Francisco Fernandes de Carvalho, filho mais velho do Coronel Gaspar
(texto transcrito fielmente do livro A famlia Fernandes e a fundao de Uruau: Reminiscncias, pginas 154 a 155. Cristovam Francisco de vila. Editora Bandeirante Ltda. Goinia. 2005).

Histórico
  » 04-01-2006 23:01:24 - 1. A criao do Municpio de Uruau
  » 04-01-2006 23:01:08 - 2. Fundao de Uruau. Gaspar Fernandes: Uma Vida de Lutas
  » 04-01-2006 23:01:29 - 3. Jos Fernandes de Carvalho e a criao do municpio de Uruau
  » 04-01-2006 23:01:56 - 4. O telegrama
  » 04-01-2006 23:01:56 - 5. A criao do municpio
  » 04-01-2006 23:01:46 - 6. A instalao do municpio
  » 04-01-2006 23:01:12 - 7. O baile
  » 04-01-2006 23:01:22 - 8. Os primeiros servidores do Poder Judicirio
  » 04-01-2006 23:01:15 - 9. Os primeiros atos do prefeito
  » 04-01-2006 22:01:25 - Governantes do Municpio de Uruau
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