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URUAU - HISTRIA
04-01-2006 23:01:29
3. Jos Fernandes de Carvalho e a criao do municpio de Uruau

Depois de cinco dias de fatigante marcha, a cavalo, Jos Fernandes e seus companheiros chegaram a Sant?Ana, a nossa Uruau, hospedando-se na residncia do Coronel Gaspar, seu tio paterno. Sant?Ana j envergava o ttulo de distrito, criado que fora por lei baixada pelo governo de Pilar, conforme anteriormente se registrou, lei publicada em o Correio do Estado de Gois, na edio de 26 de fevereiro de 1924.
Aqui, o tio Zeco falhou por alguns dias, em visita aos primos e aos irmos Samuel e Afonso, meu pai.
Em conversa com o velho Gaspar, o tio Zeco lhe relatou todos os pormenores da revoluo que levara Getlio Vargas ao poder central, a decorrente nomeao de Pedro Ludovico Teixeira, como interventor federal em Gois e, por fim, a designao justamente do juiz do antigo So Jos do Tocantins, Dr. Jos de Carvalho dos Santos Azevedo, como secretrio da interventoria, a convite do prprio Dr. Pedro Ludovico Teixeira. Em seguida, exibiu ao pai Gaspar a carta enviada pelo juiz de Niquelndia e lhe disse:
- Agora, tio Gaspar, podemos conseguir muitas coisas para a nossa Sant?Ana. Se o governo alegar falta de recursos, vamos pedir a extino de muitos rgos estaduais, sem maior importncia, que esto funcionando em So Jos, inclusive algumas escolas, para que haja recursos para o que pretendemos.
- Boa idia, Zeco, disse o pai Gaspar. Vou providenciar uma reunio de todos os filhos, amanh, s 8 horas, aqui em casa, e voc elabora a um plano de reivindicaes.
No dia seguinte, reunidos todos os filhos do Coronel e outros chefes de famlia, deliberou-se pleitear ao Dr. Pedro Ludovico Teixeira os seguintes benefcios: criao do municpio de Sant?Ana; criao de um grupo escolar a ser instalado na sede do futuro municpio; e constituio de uma comisso, presidida por um juiz de direito, a fim de se instalar o termo judicirio de Sant?Ana e dar posse s autoridades municipais.
Foi redigida a mensagem do povo de Sant?Ana, saudando o governo revolucionrio que ora se implantava no pas, com destaque para a brilhante vitria dos Ludovico contra os Caiado, quando no se pouparam os mais eloqentes elogios. Por fim, registrou-se a relao das reivindicaes, acrescida de um destacamento policial permanente, para garantir a ordem e a paz na j progressista comunidade.
Jos Fernandes de Carvalho, o tio Zeco, daqui seguiu para So Jos a fim de se encontrar com familiares. A saudade deles tanto o martirizava durante o longo perodo de esconderijo.
Aps um justo descanso, ele seguiu para a antiga capital do Estado, aonde chegou, aps cinco dias de cansativa viagem, a cavalo, com um cargueiro de mantimentos e um camarada. L hospedou-se em casa de seu tio Benedito Ribeiro de Freitas, ex-deputado estadual por So Jos do Tocantins, lder poltico de grande prestgio, chefe de numerosa famlia, os Ribeiro de Freitas.
Benedito no escondia o contentamento pela reviravolta da poltica e da administrao. De grei dos Bulhes, intimamente, no via com bons olhos o domnio absoluto dos Caiado e os rigores de castigo que impingiram aos seus adversrios. Dia e noite vivia preocupado com os filhos, todos j participantes da vida comunitria e poltica da velha capital, especialmente Jarbas e Moacyr, que no se afinavam com a poltica caiadista e poderiam, de uma hora para outra, cair nas malhas da represso dos Caiado.
Sanado o perigo, o Sr. Dito se mostrava satisfeito, como que dono da situao. Como era bom presenciar a alegria com que recebera o tio Zeco, ansioso que estava por saber de detalhadas notcias de sua terra natal, o So Jos do Tocantins.
Jos Fernandes no poupou termos para expor-lhe todas as circunstncias da vida pblica da hoje Niquelndia, assim como os apuros por que passara para se escapar das garras dos Caiado e, por fim, desabafou:
- Graas a Deus, tudo passou. A tempestade foi dura, mas valeu a pena. Agora vamos gozar das emanaes suaves e pacficas dessa brisa que nos trouxe a bonana... e deu vivas a Getlio Vargas, Pedro Ludovico e revoluo!!!
Nesse mesmo dia, acompanhado pelo Sr. Benedito Ribeiro, j noite, visitou o seu amigo Jos de Carvalho dos Santos Azevedo, agora secretrio do governo, sendo entusiasticamente recebido. Conversaram muito, rememorando as faanhas do governo anterior, sepultadas em definitivo pelo governo revolucionrio de 1930. Por fim, indagou o Secretrio:
Ento, Sr. Zeco, o que tem planejado para So Jos?
- Ora, Dr. Azevedo, para a terra de meu bero eu no quero nada. Mas quero para a minha nova terra, Sant?Ana, fundada por meu tio Gaspar. Brevemente meu mano Antnio e eu estaremos morando l. Pretendemos, ns os Fernandes, reunir todos l e lutar pelo engrandecimento do lugar. E, para comear, fizemos aqui um apelo a Vossa Excelncia e a Dr. Pedro.
Assim dizendo, ia entregando a mensagem, assinada em Sant?Ana, pelos membros da famlia, quando o Dr. Jos Azevedo aconselhou:
- No, Sr. Zeco, eu espero voc l no Palcio Conde dos Arcos amanh, s 9 horas. Quero apresent-lo ao Dr. Pedro. melhor voc entregar essa mensagem pessoalmente a ele, e eu reforo o que nela vocs esto pedindo. Pode ficar tranqilo que todas as reivindicaes da famlia Fernandes sero atendidas.
No dia imediato, hora marcada, estava Jos Fernandes na ante-sala do Palcio Conde dos Arcos, sede do governo de Gois, o porteiro encaminhou-o presena do Sr. Secretrio, anunciando, ao abrir a porta:
- Sr. Jos Fernandes de Carvalho, de So Jos do Tocantins.
O secretrio, Dr. Jos Azevedo, levantou-se da confortvel poltrona em que se encontrava sentado examinando papis, e veio at a porta:
- Oh! Sr. Zeco, vamos entrando! O dr. Pedro j est sua espera.
- Ento, vamos logo sua presena, rematou o tio Zeco.
Ambos, o visitante e o Secretrio, encaminharam-se para o gabinete de despacho do interventor Pedro Ludovico e, abrindo o Secretrio a porta de entrada, virou-se para o tio Zeco e disse:
- Entre, Sr. Jos Fernandes!
E, um ao lado do outro, chegaram at a mesa de trabalho do Interventor.
- Dr. Pedro, esse o Sr. Jos Fernandes de Carvalho, membro da grande famlia Fernandes, de So Jos do Tocantins, e que foi muito perseguido pelos Caiado. Ele foi um dos cabeas do movimento pela interveno em Gois vindo do Rio com o Marechal Scrates. nosso amigo ntimo!
Dr. Pedro ouviu atentamente a apresentao. Mostrou-se, de certo modo, comovido, por estar diante de um revolucionrio. Abraou-o calorosamente, dizendo:
- Muito bem, Sr. Jos Fernandes. J tinha ouvido falar de sua atuao com o Marechal Scrates e alimentava o desejo de conhec-lo.
Ainda com o brao direito sobre os ombros do Tio Zeco, convidou-o a sentar-se no confortvel e macio canap, obra de arte que ornava o gabinete do interventor e servia como mvel de descanso.
O Secretrio, Dr, Azevedo, interferiu:
- Dr. Pedro, o Sr. Zeco trouxe uma mensagem, muito amiga, da famlia Fernandes, congratulando com Vossa Excelncia e com todo povo de Gois pela vitria da revoluo e deseja a criao do municpio de Sant?Ana, a nova comunidade fundada pelos Fernandes, no interior do municpio de Pilar. O povoado j foi elevado categoria de distrito e, pelo que ele informa e consta desta mensagem, j tem condies de ser elevado a municpio.
Fez, ento, sinal ao tio Zeco para que entregasse a mensagem. Dr. Pedro abriu o envelope e leu. Depois voltou a vista para o visitante e disse:
- Pois bem, Sr. Jos Fernandes. Um pedido de amigo ordem para mim, desde que no seja contra a lei. O municpio de Sant?Ana ser criado, assim como atenderemos, com muito prazer, as demais reivindicaes dos Fernandes.
Passou a mensagem ao Dr. Jos de Carvalho dos Santos Azevedo, recomendando:
-Tome todas as providncias. Vamos atender aos desejos do Coronel Gaspar e de seus filhos.
Tio Zeco agradeceu ardorosamente a ateno do interventor federal e acompanhou o senhor Secretrio at o gabinete deste.
- A est, Sr. Zeco, disse o secretrio. Quanto criao do municpio, podemos providenciar j. As divisas devem ser as mesmas do distrito, com relao a Pilar; mas Amaro Leite e Descoberto ficaro pertencendo a Sant?Ana, separando-se igualmente, de Pilar.
- , est muito bem, acrescentou o tio Zeco. As divisas podero ser as mesmas dos distritos, tirou da pasta que conduzia o exemplar do Correio Oficial do Estado que publicou o decreto de criao do distrito e que estipulava as linhas limtrofes da nova unidade administrativa.
-Ah! timo! Deixe isso aqui, junto com a mensagem, para elaborarmos o decreto.
Tio Zeco entregou-lhe o jornal e foi dizendo:
- O decreto, certamente, s entrar em vigor quando for publicado no Correio Oficial. Nesse caso ir demorar um pouco, porm conto certo com o municpio de Sant?Ana e a criao do grupo escolar!
- Ora, Sr. Zeco, j est tudo combinado. Pode voltar para So Jos descansado. O pedido dos Fernandes ser atendido integralmente. A instalao do Municpio ocorrer logo aps ser criado e o respectivo decreto for publicado. Quanto ao grupo escolar, vamos antes ver as possibilidades de conseguir normalistas e providenciar verbas para a manuteno do estabelecimento. Alis, voc j poder pesquisar por a, com auxlio do Sr. Benedito Ribeiro, que conhece melhor a cidade, e ver se arranja uma ou mais normalistas que queiram ir pra Sant?Ana e mande deixar o resultado em meu gabinete. Voc poder ficar tranqilo que tudo ser arranjado.
Tio Zeco agradeceu demoradamente o acolhimento total dos pedidos da famlia Fernandes e, no dia seguinte, tomou rumo de So Jos do Tocantins, extremamente feliz pelo seu xito na viagem.
Durante o caminho de aproximadamente 280 quilmetros, entre Gois e So Jos, decidiu Jos Fernandes se transferir definitivamente para Sant?Ana, assim que o municpio fosse criado, e pleitear, para ele, o cargo de subpromotor de Justia e, para o seu irmo Antnio, o de coletor estadual, j que este h muito tempo vinha exercendo essa funo em So Jos, como sucessor, e dela fora forado a se afastar por violncia dos mandes do antigo So Jos.
Chegando sua Fazenda Criminoso, no interior do municpio de Niquelndia, onde residia, igualmente, Antnio Fernandes de Carvalho, e um pouco mais distante, no Chupa ou Chupador, o seu tio Joaquim Ribeiro de Freitas Crtes, chefe de numerosa famlia, Tio Zeco combinou com o seu irmo Antnio a mudana para Sant?Ana. Convidou tambm a aderir mudana um outro irmo, Olvio, que por algum tempo j havia residido aqui. O tio Zeco props a nomeao da tia Lastnia, mulher do Olvio, para o cargo de professora do grupo escolar a ser criado. Ela j vinha exercendo o magistrio primrio em Trahiras (hoje Tupiraaba), que era uma cidade naquele tempo. Assim seria um caso apenas de transferncia.
Antnio Fernandes abraou logo a idia. Olvio, porm, que j havia estado em Sant?Ana, pediu prazo para pensar
(texto transcrito fielmente do livro A famlia Fernandes e a fundao de Uruau: Reminiscncias, pginas 151 a 153. Cristovam Francisco de vila. Editora Bandeirante Ltda. Goinia. 2005).

Histórico
  » 04-01-2006 23:01:24 - 1. A criao do Municpio de Uruau
  » 04-01-2006 23:01:08 - 2. Fundao de Uruau. Gaspar Fernandes: Uma Vida de Lutas
  » 04-01-2006 23:01:29 - 3. Jos Fernandes de Carvalho e a criao do municpio de Uruau
  » 04-01-2006 23:01:56 - 4. O telegrama
  » 04-01-2006 23:01:56 - 5. A criao do municpio
  » 04-01-2006 23:01:46 - 6. A instalao do municpio
  » 04-01-2006 23:01:12 - 7. O baile
  » 04-01-2006 23:01:22 - 8. Os primeiros servidores do Poder Judicirio
  » 04-01-2006 23:01:15 - 9. Os primeiros atos do prefeito
  » 04-01-2006 22:01:25 - Governantes do Municpio de Uruau
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